Em entrevista, Marihana Cirne fala sobre a segunda edição do OcupAçude.

Marihana Cirne. Uma das idealizadoras do OcupAçude.

Nesta semana conversamos com uma das idealizadoras do OcupAçude. Marihana Cirne, concluinte do curso de Arquitetura e Urbanismo e pesquisadora do LabRua, contou como está sendo o processo de organização da segunda edição do evento, que será realizado no próximo sábado, dia 31/10, em Campina Grande. Confira a entrevista na íntegra.

Pós DAEE: Como surgiu a iniciativa de realizar o “OcupAçude”? Quem são os idealizadores?

MC: Idealizadores: Marihana Cirne, Manoella Cavalcanti, Raphael Santos. Tudo iniciou a partir do momento em que nós, no décimo e último período do curso de Arquitetura e Urbanismo, decidimos participar do 9º Concurso de Ideias para Reforma Urbana 2015 – FENEA (Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil). O concurso foi realizado no mês de Julho deste ano e teve como principal foco a revitalização urbana. No nosso caso, escolhemos entrar com a proposta de novos usos para o Parque Evaldo Cruz, mais conhecido como Açude Novo, localizado na cidade de Campina Grande, Paraíba. Considerado marco zero da cidade, suas mudanças fizeram parte da história de Campina, sendo palco de diversos acontecimentos ao longo do tempo. Hoje, o local é margem da ociosidade e insegurança, estando, portanto, esquecido aos olhos da gestão e da população.

No processo de diagnóstico para a realização da nossa proposta, observamos a Lei do Estatuto da Cidade, que regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, e vimos a necessidade de encontrar um meio para entrarmos em contato com uma população que tivesse voz participativa em nossas diretrizes. Então, criamos a página no Facebook chamada ‘O Açude que Queremos’, a qual colocamos diversas frases e perguntas de forma a provocar o debate e a inclusão das percepções das pessoas na proposta.

Passado o concurso, percebemos o quanto os seguidores da página ficaram animados em participar e opinar, com o sentimento de pertencimento do espaço e da cidade. Um dos pontos observados foi o medo, revelado claramente nos comentários das pessoas que gostariam de utilizar o Parque Evaldo Cruz, mas lamentavam-se pela insegurança do mesmo. Surgiu então a ideia do OcupAçude, com o objetivo de unir diversas atividades culturais para convidar a população a voltar seus olhares para esse espaço público de tamanha potencialidade.

Pós DAEE: Como você vê os resultados da primeira edição do “OcupAçude”?

MC: A repercussão do evento foi inesperada. Eu, particularmente, fiquei muito satisfeita em perceber o quanto as pessoas ainda têm dentro de si as tradições do urbanismo inicial, que foi quebrado após o modernismo. Dessa forma, o que conseguimos observar nesse tempo em que estudamos o parque e colocamos em prática a ocupação, foi que a população tem, sim, o poder de transformação. Nós, idealizadores, nos olhávamos sorridentes enquanto o evento acontecia, sabíamos o que estávamos pensando, a sensação de uma cidade viva, da apropriação do espaço público, o lazer, o convívio, o palco dos encontros. O cotidiano ativo e não monótono. Foi, com certeza, um dia muito importante para nossa cidade.

Pós DAEE: Recentemente, no Brasil, estamos vivenciando experiências de uso dos espaços públicos de maneira pouco usuais, até então. Em São Paulo, a prefeitura vem tentando colocar no debate a importância da reapropriação urbana por parte da população. As vivências na Av. Paulista e no antigo Minhocão, por exemplo, são algumas dessas pautas. Por outro lado, em Recife, movimentos liderados por membros da sociedade civil lutam contra os órgãos municipais a favor do compartilhamento do espaço com o público em detrimento de empreendimentos privados instalados em áreas de valor cultural. Como você vê a atuação da Prefeitura de Campina Grande e da sociedade civil diante de ações para uso do espaço público?

MC: Nos últimos cinquenta anos, o planejamento urbano vem sofrendo por ser uma tarefa difícil. Porém, o poder público já tem a percepção e a consciência do que deve ser feito, tendo em mãos diferentes ferramentas relacionadas ao setor específico do Planejamento Urbano, como o Plano Diretor e o Estatuto da Cidade. Em Campina Grande é perceptível o número de espaços públicos esquecidos pela gestão. Além de aspectos como a segregação e a priorização dos espaços destinados aos veículos motorizados particulares, os espaços públicos e de transição da nossa cidade também apresentam resquícios fortes do modernismo. Um dos principais pontos, que sempre tento enfatizar para a gestão, é a união com a população, o que de fato não acontece. Os reflexos da voz popular participativa são vistos em diversas partes do mundo: Copenhague, na via Stroget; Paris, na rua Montorguiel; Nova York, na Times Square, no parque High Line; Salvador, na nova orla; entre tantos outros lugares. Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, é uma prova de que a atuação da gestão deve arriscar sobre a Promotoria, investir e planejar uma cidade para pessoas, buscando sempre a conscientização da importância do pensar na escala humana. Enquanto isso não acontece, a atuação da sociedade civil vem com a força e o protesto para a retomada de olhares para os espaços públicos, como é o caso de Recife, com o movimento Ocupe Estelita, e em Campina Grande, com o nosso movimento OcupAçude.

Pós DAEE: O que podemos esperar para a segunda edição do OcupAçude?

MC: A segunda edição do OcupAçude vem com as mesmas atividades do primeiro evento (oficina de desenho e artes visuais, contação de história, livro troca, varal de exposições aleatórias, bike anjo, de bar em bike e música), além de algumas novidades, como a aula de boxe ao ar livre com a academia Formiga Brother e uma lojinha com troca de peças de desapego. Vai ser bem legal e estão todos convidados!

Pós DAEE: Quais são os planos para daqui em diante?

MC: É importante sempre ressaltar que nós, idealizadores do evento, somos apenas um ponto de apoio para as pessoas que querem utilizar do espaço público do Parque Evaldo Cruz. Então, os nossos planos para daqui em diante são de continuar realizando novas edições do OcupAçude, mas ao mesmo tempo de estimular as pessoas a criarem seus próprios eventos também e se apropriarem do local diariamente através do convívio e lazer. O espaço é público é de todos.

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